Como falar com crianças sobre política e ideologias da família

“Beatriz – 8 anos
11 de agosto de 2018
Conheça os benefícios de fazer atividade física com um amigo
12 de agosto de 2018

Se são os brasileiros com mais de 18 anos que têm a obrigação de se dirigir às urnas em outubro, as estimadas 38,8 milhões de crianças com até 13 anos que aqui vivem também compartilham o cotidiano de um país em período eleitoral.

Para alguns, é preciso haver um controle de como as ideologias políticas chegam às crianças – movimentos como o Escola sem Partido, por exemplo, tentam restringir a expressão de posições particulares de professores e garantir “o direito dos pais de que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”. Ao mesmo tempo, a participação dos pequenos na vida política é garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Afinal, em tempos de eleição e amplo acesso à informação – segundo uma pesquisa de 2016 do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), 55% das crianças de 9 a 10 anos usam a internet mais de uma vez por dia -, como famílias devem mediar o contato das crianças com o assunto? A BBC News Brasil conversou com especialistas em desenvolvimento infantil para buscar algumas sugestões.

1. Deixe a demanda vir da criança

A imagem de adultos convocando as crianças para sentar e escutar o que é política não passa na cabeça de especialistas consultadas.

“Falar muito cedo de temas como democracia e corrupção pode ser prematuro e absolutamente desinteressante. Até os 11, 12 anos, a criança está muito interessada no que está no seu entorno, no grupo de amigos, na escola e na família. A criança tem um foco determinado: se um adulto trouxer o assunto ela pode até ouvir, mas logo vai se desinteressar”, diz Magdalena Ramos, terapeuta de família.

A neuropsicóloga Deborah Moss, porém, lembra, como mãe de três filhos e profissional, que a curiosidade dos pequenos é naturalmente despertada por seu entorno – como uma vizinhança batendo panela, forma de manifestação que marcou o período do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Por isso, a sugestão é ir respondendo a este interesse à medida que a criança o manifesta.

“As crianças acabam absorvendo aquilo que têm capacidade diante do que escutam das conversas dos pais, dos professores… A construção do pensamento abstrato começa a ser desenvolvido ali pelos 2 anos, com os primeiros contatos com o ‘faz de conta’, por exemplo. Mas a política já é muito abstrata, para uma criança mais ainda. Somente com a adolescência vem a possibilidade de fazer estas conexões mais complexas e dissociar-se do pensamento dos pais, que passam a ser vistos menos como heróis e mais como pessoas de carne e osso”, diz Moss.

2. Traga questões complexas para o mundo dela

Ilustração mostra criança falando de um palanque, observada por outras pessoasDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA exposição à diferença tem função pedagógica, explica especialista

Quando a curiosidade soar, questões conturbadas e abstratas podem se tornar mais compreensíveis aos pequenos com analogias que remetam ao mundo delas.

No período do impeachment, por exemplo, Moss se valia de comparações do país e do governo com o prédio e o papel do síndico.

O selo infantil Boitatá, da editora Boitempo, vem desde 2015 investido em títulos que apresentam a temática às crianças, como “A democracia pode ser assim” e “A ditadura é assim”. Repletos de cores, ilustrações e exercícios, eles fazem analogias destes regimes com um recreio ou um ditado, por exemplo.

“As crianças são naturalmente interessadas em saber como as coisas funcionam e prestam muito mais atenção no mundo que as cerca do que a gente imagina. Elas ficam fascinadas com insetos, dinossauros, planetas, querem entender como funcionam os órgãos do corpo humano, as profissões dos adultos, por que não iriam querer entender a sociedade em que estão inseridas?”, diz Thaisa Burani, editora-assistente do selo.

Diretora pedagógica em uma escola em Goiás, Fabíola Sperandio chama a atenção também para uma mudança de hábitos que acaba afastando uma troca fundamental, não só no que diz respeito à introdução à política: a conversa.

“Está faltando bate-papo familiar, está faltando a família estar junto diante, por exemplo, de um noticiário que possa promover a discussão”, aponta a pedagoga. “Por um lado, hoje se discute tudo na frente da criança, e eu clamo que nem tudo deve ser falado. Mas aí, quando a criança quer interagir, diz-se que não ‘se trata de assunto de criança’ e ela fica diante do assunto mal explicado”.

Ilustração mostra diversas famílias diferentes lendo jornaisDireito de imagemGETTY IMAGES
Image caption‘Está faltando bate-papo familiar, está faltando a família estar junto diante, por exemplo, de um noticiário que possa promover a discussão’, diz Fabíola Sperandio

Sperandio diz que, caso as famílias desejem inserir os filhos em ações políticas mais diretas, como manifestações, a conversa também deve marcar presença.

“Somos responsáveis pelas crianças, não só por sua segurança física mas também emocional, de formação humana. No momento em que se opta por inserir a criança em protestos, por exemplo, você tem que prepará-la para isso e lidar com os momentos posteriores. É preciso uma disposição para o diálogo, para a escuta, perguntar o que ela entendeu do que viu, esclarecer dúvidas…”, sugere a pedagoga.

3. Apresente uma abertura à diferença

Acompanhada do diálogo, Deborah Moss diz não ver problemas de uma apresentação do posicionamento da família, caso esta seja uma demanda dos adultos. Mas, diz a neuropsicóloga, isto deve vir com uma linguagem acessível e a valorização da tolerância.

“É preciso ter cuidado para não se apresentar a opinião como uma verdade, como se qualquer coisa que ‘não fale a língua da gente’ esteja errado. Respeitar as diferenças é parte da educação”, diz Moss.

Sperandio lembra que a exposição à diferença tem, inclusive, uma função pedagógica. É algo que faz parte, por exemplo, do processo de alfabetização.

“Quando você escreve, você pensa, lê, reflete… Você está em processo de construção. Então, esse processo não pode ser tolhido. É como a criança que está começando a escrever: temos uma caderno de escrita, por exemplo, que não tem intervenção da professora. É o momento de errar, arriscar e ensaiar”, diz a pedagoga.

Imagem mostra diversos braços depositando cédulas em uma urnaDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionEspecialistas indicam driblar a abstração de temas como democracia e corrupção com analogias que remetam ao universo da criança

4. Dê o exemplo

Magdalena Ramos defende que, mais do que falar diretamente da política com crianças, é importante que os adultos criem condições para se apresentarem como exemplo de uma conduta ética.

“Vejo muitas famílias falando uma coisa e fazendo exatamente o contrário: falam que é preciso respeitar o outro, mas o tempo inteiro o pai é um transgressor. As crianças são muito críticas e observadoras, percebem a diferença no discurso e na ação”, diz a terapeuta. “Os pais são muito incoerentes, mas os filhos precisam de uma coerência, de harmonia, rotinas… Este tipo de ambiente é importante para criar valores para os filhos, valores esses que, depois sim, permearão a atividade política”.

Sperandio faz um diagnóstico parecido a partir de seu dia-a-dia na escola e no consultório.

“Percebo as crianças muito interessadas em um mundo melhor, porque se fala muito nisso. Mas a gente faz esse discurso e depois se contradiz com as atitudes. A criança fica confusa: elas precisam ter um porto seguro mas, hoje, não sabem onde estão pisando”.

Fonte – https://www.bbc.com/portuguese/geral-45092005

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *